Tuesday, September 09, 2003

Cyana Leahy e a poesia que fala ao silêncio

Acredito na poesia que se faz perceber já no tempo que antecede a palavra. A poesia que quando atinge o status de verso, quando se derrama na espessura das folhas – quando folhas são folhas das folhas da relva whitmaniana -, já traz dentro de si um caminho percorrido. Poesia gestada (gesto-gestão-gestação) desde antes do delírio racional, nos sentidos, nos gemidos de dor ou prazer...
É assim que vejo a poesia de Cyana Leahy. Uma poeta que transita pela expressão falada, pela oralidade do poema e vai depositando suas larvas de encantamento a partir do que transborda da condição humana. Quando escrita, fecha-se no livro, guarda-se na estante, para depois novamente retomar a cena, as ruas, os palcos, os bares. Poemas escritos com a sobriedade de quem sonha e que, como diaz Fayga Ostrower, “são configurações de uma matéria física ou psíquica (configurações artísticas ou não-artísticas, científicas, técnicas, comportamentais) em que se encontram articulados aspectos espaciais e temporais”. Então, todo o experimento do intelecto submete-se ao ínfimo cordão umbilical do que fica espremido entre as paredes da racionalidade. Esse experimento vai crescendo, crescendo... amputando as sobras e, como um vírus, multiplicando-se nos espaços onde cada leitor revela-se num abismo de sedução.
“Seminovos em bom estado” traz um pouco dessa lira que se debate e não se contém diante dos modismos pasteurizados da poesia contemporânea. É uma coletânea de paisagens íntimas, codificadas por uma mulher em estado de sempre. Cyana Leahy faz o poema que se revela sem escudos, sem arestas, sem outra nudez que não a que se nos revela em expressões de ternura.

Lau Siqueira